As zonas húmidas fazem parte dos biótopos mais importantes
para a preservação da biodiversidade. Estas são locais
de refúgio e nidificação de muitas espécies
de aves. Os diferentes subecossistemas promovem a existência de muitas
espécies. Simultaneamente, os biótopos dunares, actuam como
protecção contra a erosão dos litorais.
A 6 de Março de 1979 foi criada a Reserva Natural das Dunas de
S.Jacinto pelo Decreto Lei nº 41/79 no pressuposto de estas formações
dunares serem zonas altamente sensíveis, manifestando-se interesse
na sua protecção e fixação como forma de impedir
o avanço do mar, a salvaguarda dos terrenos de cultura e também
a conservação do património faunístico, donde
se destacava a colónia de garças mais setentrional
do País, assim como a conservação do património
florístico das dunas, consideradas das mais bem conservadas da Europa.
Em 1997, foi estabelecida uma reclassificação da RNDSJ pelo
Decreto Regulamentar nº 46/97 de 17 de Novembro. Aproximadamente 99
% da área abrangida pela reserva pertence ao Estado. Hoje a reserva
está inserida em redes internacionais de conservação
estando germinada com a Baie de Canche (França). É considerada
uma Zona de Protecção Especial de Aves (Directiva 79/409/CEE)
e Biótopo Corine C12100011. Apesar da sua importância, verificam-se
intenções no sentido da perda do seu estatuto de Reserva
Natural.
Ainda segundo o Decreto Lei nº 41/79 estabeleceram-se diferentes
áreas (Fig. 1). A Reserva Natural Integral com uma área de
102.5 ha, incluindo toda a zona de areal. É limitada a poente pelo
mar e a nascente pela zona de dunas. Esta é uma área de acesso
restrito. A Reserva Natural Parcial com uma área de 473.5 ha, é
constituída por toda a área florestada, à excepção
da reserva de recreio. É uma área de acesso condicionado.
A Reserva de Recreio com uma área de 90 ha, inclui as duas zonas
de praia desde o oceano até às dunas, assim como a zona de
mata entre a E.N. 327 e a linha de alta tensão. Esta é uma
área de livre acesso e desembarque.
Fig. 1 - Mapa de classificação das diferentes áreas
na reserva (mapa cedido pela sede da RNDSJ).
A mata é atravessada por uma rede de corta-fogos que a dividem
em cerca de 40 talhões. Para além do controle de incêndios
através da abertura de aceiros é exercido controle através
de uma torre de vigia. Foram criados artificialmente vários charcos,
como locais de nidificação e refúgio para determinadas
espécies de aves. Estes charcos são também bastante
úteis para os diversos anfíbios que habitam o parque, por
sua vez bastante importantes no controle das populações de
insectos, dos quais se alimentam em abundância. Actualmente, essas
zonas húmidas criadas artificialmente são frequentadas por
várias espécies de anatídeos, ocorrendo a nidificação
de outras aves e verificando-se longas permanências por parte das
garças (Henriques, 1994).
No interior da reserva não existem actividades económicas.
A reserva apresenta carreiros artificiais onde se realizam percursos pedestres
por diferentes trilhos de interpretação e de descoberta da
natureza. Existe a possibilidade de solicitar o acompanhamento de guias
da própria reserva. No entanto esta actividade tem vindo a ser descuidada
e os trilhos não são utilizados na sua totalidade e a sua
manutenção é deficiente. Um percurso pedestre por
estes trilhos é suficiente para entendermos da importância
e da beleza da RNDSJ.
Para além de outras convenções específicas
a cada área, é proibido em toda a Reserva, constituindo contravenção,
o sobrevoo por aeronaves que circulem com o tecto de voo inferior a 1000
pés (Decreto Regulamentar nº 46/97); a utilização
de aparelhos de amplificação sonora e de radiodifusão,
excepto quando usados no interior de edifícios e desde que não
audíveis no exterior; construir, reconstruir, ampliar ou alterar
construções existentes, bem como efectuar qualquer obra de
aterro ou escavação sem autorização prévia.
É ainda proibido transitar fora dos caminhos, arrifes e aceiros
devidamente sinalizados; caçar ou capturar qualquer espécie;
destruir ou danificar luras e ninhos e apanhar ovos; colher plantas ou
parte de plantas; introduzir espécies animais ou vegetais exóticas;
instalar barracas, tendas de campismo ou caravanas fora das zonas para
o efeito indicadas; fazer lume fora dos locais para o efeito estabelecidos;
abandonar detritos ou lixo fora dos recipientes para esse fim.
A fauna e flora da Reserva encontra-se dispersas de uma forma desigual
nos seus diferentes sub-ecossistemas, consequência da diferente afinidade
de cada espécie ao meio. Uma possível forma de divisão
será: zona de marés, duna primária, zona interdunar,
duna secundária, charcos artificiais e pateira.
Fig. 2 - Diferentes sub-ecossistemas desde a zona de marés
até
à duna
secundária progressivamente ocupada pela mata.
Na duna primária encontram-se plantas que fixam as dunas e que
têm que resistir ao vento, à salinidade, às grandes
amplitudes térmicas, à grande luminosidade, à falta
de água doce no solo e ao soterramento constante. No lado virado
para o mar destaca-se o estorno (Ammophila arenaria), planta que
apresenta grande resistência ao vento e salinidade e, sobretudo ao
soterramento, fruto da sua grande capacidade de regeneração.
Fig. 3 - Pormenor da flora na reserva.
Segundo Reis (1993), na face da duna primária virada ao mar a
vegetação espontânea é extremamente variada,
e para além do já referido estorno, encontram-se ainda a
atanásia-marítima (Otanthus maritimus), a soldanela
(Calystegia soldanella), o cardo-marítimo (Eryngium maritimum),
a eruca-marítima (Cakile maritima), o narciso-das-areias
(Pancratium maritimun) e a madorneira (Artemisia campestris).
Estas espécies são no entanto dominadas por outras espécies
que foram introduzidas pelo homem com o objectivo de consolidar as dunas
tais como a acácia e o chorão. A acácia tem dificultado
o desenvolvimento da flora nativa e por consequência o número
de espécies animais associadas, criando segundo Henriques (1996),
um povoamento homogéneo, paisagisticamente monótono. A acácia
encontra-se por toda a reserva, tanto nas dunas como na mata. Aliás,
esta situação verifica-se por grande parte do litoral. É
imperativo o restabelecimento com flora primitiva ou mesmo com outra não
autóctone, desde que precedida de estudos técnicos competentes,
de forma a se manterem os biótopos dunares. O declíneo destes
biótopos, com consequências nefastas para as populações,
são evidentes, e consequência de intervenções
humanas não equacionadas, como a construção de esporões
que retêm as areias no seu lado norte, prejudicando o litoral a sul
dessas infraestruturas. Os biótopos dunares são ainda progressivamente
ocupados por estruturas habitacionais ou mesmo por parques de estacionamentos
como faz exemplo mais a norte a Aldeia de Mindelo, junto à Rua de
Sagres. Neste espaço, próximo da Reserva Ornitológica
de Mindelo, é óbvio estar condenada à partida uma
recolonização das espécies responsáveis pela
estabilização da duna, não se incluindo nestas a espécie
vulgarmente apelidada de chorão. Um exemplo mais próximo,
é a Praia da Maceda, onde à natural erosão costeira
é ainda somada os efeitos resultantes da construção
de esporões. O pinhal começou já a ser afectado, podendo-se
facilmente encontrar os pinheiros mais próximos das águas
do mar tombados, resultado da intrusão salina no solo, anteriormente
protegido pelas estruturas dunares.
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Na zona interdunar já se encontra o pinheiro-bravo, postrado
e com reduzido crescimento por se encontrar exposto à humidade,
ao vento e à salugem. Esta zona situada entre as dunas primária
e secundária, é também chamada de camarinheira visto
a espécie predominante ser a camarinha também referida como
camarinheira (Corema album), planta esta que também ocorre
no interior da mata.
Na duna secundária, encontra-se essencialmente o pinheiro-bravo
(Pinus pinaster) mas ocorrendo também outras espécies
tais como as austrálias (Acacia melanoxylon e Acacia longifolia)
e o samouco (Myrica faya).
Fig. 5 - Um bonito exemplo da flora na duna.
Em certas zonas baixas da mata (Reis, 1993) em que se verifica acumulação
frequente de água, ocorrem choupos-negros (Populus nigra),
amieiros (Alnus glutinosa) e salgueiros (Salix, sp.), enquanto
que noutras áreas, como pequenas clareiras encharcadas, valas de
drenagem e charcos artificiais, aparecem espécies espontâneas
típicas das zonas húmidas como as que existem nos terrenos
marginais da Ria de Aveiro: caniço (Phragmites australis),
junco (Juncus sp.), tábua-larga (Typha latifolia)
e salgueiro-anão (Salix repens).
Um pouco por toda a mata da reserva surgem também os cogumelos,
especialmente na Primavera e no Outono. Apresentam as formas e os tamanhos
mais variados e as cores mais diversas (Fidalgo, 1989). Os cogumelos asseguram
a decomposição de matéria orgânica pelo que
desempenham um papel muito importante na reserva ao nível dos ciclos
biogeoquímicos.
Fig. 6 - Pormenor da manta morta no solo da mata da reserva.
Na área florestal existem ainda outras espécies dignas
de registo: as sabinas-das-areias (Juniperus phoenicea), a giesta
(Spartium junceum) e mais uma vez o pinheiro-manso(Pinus pinea).
Segundo Reis (1993), a primeira e a terceira devem ser realçadas,
dado o pequeno número de exemplares existentes e a segunda por ter
sido uma espécie pioneira na recuperação de áreas
degradadas.
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Nesta zona de duna secundária, encontra-se o charco maior, também
denominado pateira, dado o número de anatídeos que o
frequentam. A vegetação é a típica das zonas
húmidas como já adiantado. Na pateira foi construída
uma estrutura em madeira que permite a observação das aves
de uma forma camuflada. É de aconselhar a sua utilização.
Fig. 8 - A pateira - refúgio para inúmeras espécies.
As aves são a maior relíquia faunística da reserva.
No caso dos passeriformes insectívoros, bem adaptados à obtenção
de alimento nos ramos das árvores e nas folhas, constituem-se como
importantes predadores dos agentes das pragas florestais, contribuindo
decisivamente para a sanidade do povoamento vegetal (Reis, 1993). Esta
função ainda se verifica pelo que se mantêm uma das
justificações iniciais de criação da reserva.
Nas águas do oceano em frente à reserva (zona de marés),
ricas em fitoplâncton e peixe, observam-se concentrações
mistas de patos-negros (Melanita nigra), gaivotas-de-asas-escuras
(Larus fuscus), guinchos (Larus ridibundus), andorinhas-do-mar-comum
(Sterna hirundo), gansos-patolas (Sula bassana) e corvos-marinhos-de-faces-brancas
(Phalacrocorax carbo). Segundo Reis (1993), à excepção
do pato-negro e do ganso-patola, todas as espécies podem ser vistas
em maior ou menor número nas águas da Ria de Aveiro. Ainda
segundo o mesmo autor, os patos da superfície (Anas sp. e
Aythya sp.), em certos períodos deslocam-se da ria para o mar,
podendo ser facilmente observados da praia da reserva flutuando na ondulação
fraca. Limícolas vários podem também ser observados
nesta zona de marés. É o caso do borrelho-de-coleira-interrompida
(Charadrius alexandrinus), do pilrito-sanderlingo (Calidris alba)
e dos ostraceiros (Haematopus ostralegus).
Na mata da reserva, identificam-se várias espécies como
o chapim-real (Parus major), o chapim-carvoeiro (Parus ater),
o chapim-de-poupa (Parus cristatus), o tentilhão (Fringilla
coelebs), o papa-moscas-cinzento (Muscicapa striata), o papa-moscas-preto
(Ficedula hypoleuca), a toutinegra-de-barrete-preto (Sylvia atricapilla)
e a felosa-do-mato (Sylvia undata). Podem ainda ocorrer algumas
aves de rapina como a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo),
a coruja-do-mato e o açor (Accipiter gentilis). Estas aves
não só caçam na mata como, juntamente com o peneireiro-de-dorso-malhado
(Falco tinnunculus), podem obter as suas presas sobre as dunas (Reis,
1993). Outras espécies nidificantes na mata são, por
exemplo, os pombos-torcazes (Columba palumbus), as rolas-comuns
(Streptopelia turtur) e os gaios (Garrulus glandarius).
Ainda na mata, encontram-se as raposas (Vulpes vulpes) e as genetas
(Genetta genetta). Existem ainda outros mamíferos como ratos
e coelhos.
Nos charcos artificiais podem observar-se tritões e uma ou outra
espécie de libélula comum da ria. Os charcos artificiais
são também um refúgio para os patos da Ria de Aveiro
e mais um incentivo ao retorno das garças. Foram criados também
a pensar nos anfíbeos como a rã, o sapo, o pleurodelo, a
rela (Hyla arborea) e o tritão que conjuntamente com as aves
exercem controle sobre as populações de insectos.
A Pateira da reserva é frequentada por aves aquáticas
da ria (anatídeos e ardeídos) que a utilizam como refúgio
contra as muitas pressões de que são alvo no estuário.
Realce-se que de entre os princípios gerais contidos na Directiva
79/409/CEE destaca-se o conceito básico de que as aves selvagens
que ocorrem naturalmente no território europeu dos Estados-membros
constituem um património comum, de natureza essencialmente
transfronteiriça e com grande significado no plano comunitário.
Assim, a Directiva impõe aos Estados-membros da comunidade a
obrigatoriedade legal de respeitar nos respectivos territórios um
património avifaunístico comum, de que são
considerados depositários e gestores, mas não proprietários.
Durante os meses de Outono e Inverno, e após a chegada de
largas centenas de patos vindos do norte da Europa, a pateira enche-se
com estas espécies que se vêm juntar a outras residentes como
as galinhas-de-água (Gallinula chloropus) e os mergulhões-pequenos
(Tachybaptus ruficolis). Algumas espécies acidentais como
o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o colhereiro (Platalea
leucorodia), patos-reais (Anas platyrhynchos), marrequinhos
(Anas crecca), piadeiras, frisadas (Anas strepera), negrinhas
(Aythya fuligula), arrábios (Anas acuta), patos-trombeteiros
e a coruja-do-mato podem aumentar ainda mais o interesse deste habitat.
Já em 1993 as garças-reais (Ardea cinerea) e as
garças-brancas-pequenas (Egretta garzetta) utilizavam a pateira
como local de descanso no Inverno (Reis, 1993). Entre 1952 e 1979
existiu na mata de S.Jacinto uma colónia mista de garças-brancas-pequenas
(Egretta garzetta) e garças boieiras (Bubulcus ibis).
Esforços no sentido de voltar a captar estas aves têm sido
implementados. Infelizmente regra geral o que o homem altera num curto
espaço de tempo revela-se moroso na sua recuperação.
Algumas garças já regressam, por vezes permanecendo durante
períodos de tempo relativamente longos.
Fig. 9 - Etapas gerais na formação de um sistema dunar
e papel da flora na implementação da mesma (in Oliveira,
1997).
São todos os diferentes biótopos da RNDSJ ou próximos,
como a zona de marés, a Mata, os charcos artificiais, a Pateira,
etc., em conjunto com outros não reclamados para a reserva, como
o Lugar da Ribeira do Mar na Madalena, a Barrinha de Esmoriz e a Ria de
Aveiro, que promovem a diversidade de espécies assinaladas.
O projecto "Dunas: conhecer e conservar", iniciativa do Parque Biológico
de Gaia em parceria com a Câmara Municipal de Gaia e com o apoio
do Programa Life (União Europeia)., equaciona a proposta de dirigir
ao Estado Português e à União Europeia o lançamento
de uma Bandeira Amarela, sinalizadora de acções de recuperação
e conservação de dunas, a exemplo das Bandeiras Verde (Praias
Fluviais) e Azul (Praias Marítimas). Este programa visa sensibilizar
a população para a defesa do cordão dunar e contribuir
para tornar as opções de autarcas e outros decisores mais
favoráveis à conservação das dunas, na óptica
do desenvolvimento sustentável.
De realçar em S.Jacinto a existência de um agrupamento
de escuteiros fazendo sede num parque onde se verificam actividades com
a colocação de ninhos e plantação de pinheiros
bravos. De repensar a colaboração deste agrupamento com a
sede da reserva de forma a se constituir mais um foco de preservação
da RNDSJ. Esta colaboração torna-se ainda mais importante
pelo facto de este tipo de associações envolverem jovens
e desta forma se cumprir mais um dos objectivos da RNDSJ: a educação
ambiental.
Relativamente a outras actividades humanas importa referir o desaparecimento
progressivo de actividades tradicionais como a arte da xávega e
a apanha do moliço. A arte da xávega, é uma forma
de pesca que consiste em puxar de terra uma rede de dois longos panos de
malha larga e um saco de malha apertada, lançada previamente ao
mar a partir de um barco. Para se capturar o pescado, utilizava-se então
a sirga (Oliveira, 1997), um cabo que se puxava, a partir das margens,
à força de braços ou de gado. Este tipo de pesca é
praticada ainda em alguns locais como Esmoriz, e mais longe, a sul, na
Nazaré. No entanto, a força humana ou animal foi substituída
pelos vulgares tractores. Os moliceiros são barcos característicos
da Ria de Aveiro. O moliço é recolhido da Ria com ancinhos.
Os moliceiros são ainda utilizados para o transporte de sal. A diminuição
na actividade de colecta de moliço, tem influência na qualidade
das águas que sofrem de um processo de eutrofização
resultante dos adubos utilizados na agricultura e de outras actividades
humanas. A recolha de moliço compensa, pelo menos parcialmente,
a acumulação dos nutrientes e consequentemente o processo
de eutrofização da Ria. A qualidade das águas tem
uma relação directa com a sobrevivência e o desenvolvimento
dos peixes de que se alimentam as aves quer da ria quer da reserva. Por
outro lado, a dragagem do leito da Ria de Aveiro, é de grande interesse,
de forma a permitir a livre circulação das águas nos
canais e a dispersão dos nutrientes e/ou contaminantes. Segundo
Reis (1993), as zonas a dragar deverão ser cuidadosamente trabalhadas,
de forma a preservar os bancos de areia considerados fundamentais para
as aves limícolas. Aquando das dragagens, dever-se-á ter
ainda em atenção os locais de acção de forma
a não pertubar o natural desenvolvimento das espécies que
os utilizam durante parte ou totalidade do seu ciclo de vida.
Também em declíneo e quase inexistentes neste litoral
são os palheiros. As casas de telhados em colmo, similares às
que se podem observar em outras zonas como a lagoa de St. André
em que o colmo servia de cobertura não só aos telhados mas
também a outras estruturas das casas, são um reflexo do abandonar
dos costumes, que reflectem claramente as alterações, resultado
do "progresso". Será só nostalgia? É de notar, a idealização
destas habitações que eram elevadas por meio de estacas de
forma a permitir o natural transporte das areias pelo vento e a ocupação
do solo pelas águas dos charcos temporários de Inverno. O
espaço decorrente da elevação das casas permitia ainda
a recolha de barcos ou outros apetrechos de pesca. Actualmente, e como
referido por Oliveira (1997), os palheiros são raros, e os que sobrevivem
foram, na maioria dos casos, transformados em casas de férias, por
vezes bastante mutilados na sua arquitectura primitiva. Esta prática
é consequência directa do grau de aculturação
da população portuguesa e espelho dessa lacuna assim como
da difusão da nossa própria cultura.
Fig. 10 - Parque de dunas da Aguda (repare-se que a construção
na areia é semelhante à dos palheiros).
A legislação existente não é a mais indicada
e, como regra geral no nosso país, revela-se em muitos casos ineficaz
em diversas situações. Esta deverá ser alterada não
só tendo em conta todos todos estes espaços de elevado interesse,
mas também redefinida para cada um desses mesmos espaços.
Este ponto é de extrema importância, na medida em que cada
um destes espaços necessita de cuidados especiais. Veja-se o exemplo
da qualidade das águas. O respeito por determinados índices
de parâmetros de qualidade da água num determinado local não
será necessáriamente aplicável a outro mesmo. Aborde-se
ainda um outro exemplo e penso estar justificado esta necessidade: a caça.
A abertura de épocas de caça em outros locais que não
a reserva de S.Jacinto, não é a meu ver, justificação
do início da mesma actividade nesta mesma. Na minha opinião,
em S.Jacinto, este tipos de agressões à sua fauna, não
deveriam ser permitidas. Poder-se-á contrapor: a caça já
não é permitida na RNDSJ. Exacto! Em S.Jacinto. E nas suas
proximidades? Quem estará para julgar de que lado da "fronteira"
cairá a espécie abatida? Para que interessa proteger dentro
dos limites da reserva, se a poucos Km´s desta não dispomos
de mecanismos de proteção das mesmas espécies que
albergamos na reserva? E relembro uma vez mais a Directiva 79/409/CEE.
Esta é uma reflexão necessária a todos os que detêm
o poder de interferir e não excluindo deste processo as próprias
associações de caça.
Já em 1993, segundo Reis (1993), no que respeita à vida
selvagem, destacavam-se como medidas urgentes o disciplinamento da actividade
cinegética, com a criação de áreas de caça
interdita em zonas particularmente sensíveis, bem como a inclusão
de determinadas áreas da Ria de Aveiro na lista das Zonas Húmidas
de Importância Internacional (Convenção de RAMSAR assinada
a 2/2/1971 e aprovada pelo governo português pelo Decreto-Lei nº
101/80 de 9 de Outubro).
A RNDSJ tem uma vantagem em relação a outros Parques Naturais,
o facto de abranger uma área relativamente pequena permite um controle
razoavelmente eficaz. Esse controle deverá ter em atenção
um problema da RNDSJ: o turismo na sua vertente de educação
ambiental. O pisoteio constante é mais um dos perigos a que a reserva
está sujeita, com graves consequências no desenvolvimento
da flora.
Os fogos tem consequências negativas na RNDSJ. A rede de corta-fogos
minoriza este perigo assim como a vigilância da torre de controle
da reserva. Esta rede de corta-fogos não será eficiente se
não for limpa periodicamente. Caso este cuidado não se verifique,
ela não funciona e não poderá ser utilizada por veículos
de combate a incêndios. A torre de vigia necessita também
de reparações.
Os voos rasos de aeronaves consideram-se agressões à fauna
existente na reserva.
Resumindo, segundo Reis (1993), poder-se-ão atribuir à
reserva três funções essenciais: a função
de conservação da estrutura dunar, a de educação
ambiental e a de protecção da avifauna aquática da
Ria de Aveiro e na opinião dos autores deste trabalho também
a da própria reserva.
O primeiro ponto será de fácil concretização
desde que para isso a área classificada como Reserva Integral, o
seja de facto (Reis, 1993). O segundo ponto não deverá pôr
em causa os outros dois sendo sujeito a um controle rigoroso. Quanto ao
terceiro ponto, e em consonância com autores como Reis (1993) e como
já foi discutido neste trabalho, se nos habitats próximos
da RNDSJ, não se verificarem as medidas de protecção
necessárias, muitas aves desaparecerão ou não regressarão
após a expulsão, consequência da actividade humana.
Jorge Lopes ( jmlopes@teleweb.pt
)
Abril de 1998
Bibliografia
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HENRIQUES, P.C. Dunas de S.Jacinto - Reserva Natural, Instituto de Conservação da Natureza, 1994.
HENRIQUES,P.C. Parques e reservas naturais de Portugal, Editorial Verbo, Lisboa, 1996.
LOPES,J., ALMEIDA,P., CONCEIÇÃO, R., GARCIA, S. "Reserva Natural das Dunas de S.Jacinto: uma caracterização geral", Revista da UFP, n. 2, vol.2, (1998): pp. 527-541.
OLIVEIRA, N.G. História da Reserva Natural das Dunas de S.Jacinto, 1995.
OLIVEIRA, N.G. Do estuário do Douro às Dunas de S.Jacinto: um percurso de descoberta do litoral, Parque Biológico Municipal - Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, V.N. Gaia, 1997.
REIS, A.,. Ria de Aveiro: Memórias da Natureza, Câmara
Municipal de Aveiro, Ovar, 1993.
Imagens
As imagens são da autoria de Ana Fonseca e Ricardo Conceição
com direitos de utilização do Geonúcleo (Núcleo
de Ambiente da Universidade Fernando Pessoa).